Biomédico pode ser perito criminal? Guia da carreira

Sim: biomédico pode ser perito criminal — e a Biomedicina já é um dos cursos mais aceitos nesse tipo de concurso. Num levantamento feito pelo Mapa Concursos em todos os editais de perito do Brasil (federal e estaduais), a Biomedicina apareceu como formação aceita em 20 dos 28 editais mais recentes, ou 71% deles, entre os 15 cursos mais aceitos do país.

Mesmo assim, as dúvidas continuam: precisa de pós? De habilitação? Vou trabalhar só no laboratório de DNA?

E se o edital não aceitar minha área?

Este guia responde tudo isso com base na experiência de quem fez esse caminho: a Leilane Verga, fundadora do Mapa Concursos, é biomédica formada pela UEM, foi aprovada para Perito Criminal três vezes em 2017 (1º lugar no RS, 1º lugar em SC e 2º lugar no PR) e atuou no Instituto-Geral de Perícias do Rio Grande do Sul de 2018 a 2025.


O que faz o perito criminal

O perito criminal é o profissional a serviço da Justiça responsável por produzir a prova técnica, a partir da análise científica dos vestígios deixados na prática de crimes. É ele quem vai ao local de morte, analisa a droga apreendida, compara o projétil com a arma e escreve o laudo que vai embasar o processo.

Um ponto que confunde muita gente: a única forma de se tornar perito oficial no Brasil é por concurso público. Nenhuma graduação em Ciências Forenses, nenhuma pós em Perícia e nenhum curso livre substitui essa etapa. Perito judicial e perito particular são outras profissões, que atuam em outra esfera e não fazem perícia criminal oficial.

Os requisitos básicos, portanto, são dois: graduação aceita no edital e aprovação no concurso.

Perito federal e perito estadual

Existem dois níveis de concurso:

  • Perito Criminal Federal, vinculado à Polícia Federal. O concurso é nacional, e as primeiras lotações costumam ir para a região Norte e áreas de fronteira, onde a demanda é maior.
  • Perito Criminal estadual, com um concurso por unidade da federação: 26 estados mais o Distrito Federal.

No total, são 28 concursos de perito criminal no Brasil. No estadual, você é servidor daquele estado e trabalha nele — não existe transferência entre estados.

Perito é policial civil?

Depende do estado. Em lugares como Rio de Janeiro e Minas Gerais, a perícia ainda está dentro da estrutura da Polícia Civil. Mas, na maioria dos estados, ela já tem autonomia e funciona como Polícia Científica (Santa Catarina, por exemplo, deixou de ser IGP-SC e virou Polícia Científica). Por isso, ao pesquisar, procure por “perito criminal estadual” ou “polícia científica”, e não por “perito da Polícia Civil”.

Você também pode encontrar nomes diferentes para o mesmo cargo em editais antigos: perito químico-legal (antigo Paraná), perito bioquímico (antigo Santa Catarina) ou perito legista (no Rio de Janeiro, o cargo aceita Farmácia, Biomedicina e Odontologia, sem fazer necropsia). Tudo isso é perito criminal oficial, com a mesma remuneração dentro do mesmo cargo.


O que o edital exige do biomédico

Aqui estão os pontos que mais geram insegurança — e a maioria deles não é o obstáculo que parece.

Pós-graduação não é requisito. Ela pode render alguns pontos na prova de títulos, quando existe essa etapa (nem todo concurso tem). Só que a prova de títulos pesa muito menos que a objetiva e a discursiva. A Leilane prestou os quatro concursos de perito sem nenhum título. No Paraná e em Santa Catarina havia prova de títulos, e ela manteve o 2º e o 1º lugar, respectivamente: a nota das provas era alta o suficiente para ninguém ultrapassá-la.

Não precisa de habilitação específica. Não existe habilitação forense na Biomedicina (a mais próxima seria a toxicologia), e nenhum edital de perito exige isso. Qualquer habilitação com que você se formar serve.

Diploma e registro no conselho só na posse. Você não precisa estar formado para prestar a prova, e o registro no Conselho de Biomedicina, quando exigido, também só é cobrado na posse. Entre prova, etapas e nomeação, esse intervalo costuma ser longo. No concurso do IGP-RS de 2017, houve candidatos nomeados só em 2023.

É por isso que dá para — e vale a pena — começar a estudar ainda na graduação.

Na Mentoria Excelere, a gente atende muita gente nessa fase, justamente porque o tempo de faculdade é uma vantagem: dá para construir a base sem a pressão de quem precisa passar no ano que vem.

E quando a Biomedicina não está no edital?

Primeiro, veja quais áreas o concurso abriu. Se só há vagas para Engenharia, por exemplo, não há o que fazer: a instituição abre vagas de acordo com a própria demanda. Mas, se existe uma área com atribuições compatíveis com as do biomédico, há precedentes para tentar:

  1. Acionar o Conselho para retificar o edital. Foi o que aconteceu no último concurso do Ceará: o Conselho conseguiu incluir os biomédicos numa área que era só de Farmácia, porque as atribuições eram as mesmas.
  2. Prestar por equivalência e garantir a posse na Justiça. Por sua conta e risco. A Nadine, biomédica, prestou o concurso do Pará de 2018 para a vaga de Ciências Biológicas, foi aprovada e, na nomeação, entrou com mandado de segurança para tomar posse. O candidato classificado atrás dela questionou a posse, e o processo se arrastou por anos — até transitar em julgado confirmando que ela tinha direito ao cargo.

Esse segundo caminho não é garantido: depende de quem julga o caso, e já houve biomédico que perdeu em primeira instância. Vale lembrar também que a legislação muda. No DF, a Biomedicina não entrou no edital de 2016, mas a lei da carreira foi atualizada e o termo de referência do próximo concurso já prevê vagas para biomédicos.


Quanto ganha o perito criminal

Hoje, o salário inicial médio dos concursos de perito fica em torno de R$ 15 mil. Os maiores iniciais estão no Amazonas, Distrito Federal, Paraná, Santa Catarina e Polícia Federal, na faixa de R$ 26 mil a R$ 28 mil. Em alguns estados o inicial é menor, mas o final de carreira surpreende: no Mato Grosso, o inicial é de cerca de R$ 18 mil e o final chega a R$ 43 mil, o maior do país.

A remuneração é a mesma para todas as formações: biomédico, engenheiro e farmacêutico no mesmo cargo e nível ganham igual. E esses números mudam. Quando a Leilane prestou o IGP-RS, em 2017, o edital previa R$ 9 mil; na nomeação já eram R$ 11 mil, e pouco depois uma reestruturação levou a R$ 13 mil.


Como é o concurso de perito para biomédicos

Perito geral x perito especialista

Essa diferença diz respeito ao concurso, não à área em que você vai atuar.

  • Perito geral: qualquer curso superior (ou várias áreas) disputa as mesmas vagas e faz a mesma prova, com português, direito, raciocínio lógico, informática, criminalística e matérias “básicas” como biologia, química, física, contabilidade e matemática. Básico aqui não significa fácil; significa um nível mais próximo do ensino médio do que da graduação.
  • Perito especialista: as vagas são divididas por área, e cada área faz uma prova de conhecimentos específicos diferente — normalmente a parte que mais pontua. Hoje é o formato da maioria dos concursos.

Saber disso muda a preparação. Quem alterna entre concursos gerais e especialistas praticamente recomeça do zero a cada prova. Os quatro concursos que a Leilane prestou foram de perito especialista, e a preparação de um foi se somando à do outro.

Com quem o biomédico concorre

Como a Biomedicina ainda tem menos presença nas instituições, ela costuma ser agrupada com outras áreas, e o agrupamento muda de edital para edital:

  • Biomedicina + Biologia (o mais comum);
  • Biomedicina + Farmácia — no Maranhão, por exemplo, quase todo o conteúdo específico é de Farmácia;
  • Biomedicina + Biologia + Farmácia + Medicina Veterinária — como na área de genética forense da PF 2025, com conteúdo quase todo de genética forense.

Quanto mais áreas no grupo, mais conteúdo para estudar.

O que cai nas específicas

O que é praticamente garantido são as matérias de Biologia e Biomedicina: biologia molecular, genética, entomologia forense, ambiental, entre outras. E também matérias que quase ninguém vê na faculdade, como tricologia forense, hematologia forense e análise de padrões de manchas de sangue.

Mesmo as matérias familiares têm outro recorte. A genética da prova de perito não é a da graduação. Um exemplo: as regiões hipervariáveis I e II do DNA mitocondrial, importantes para identificação humana, caem em prova e raramente são destacadas na faculdade. É por isso que material genérico atrasa tanto: livro de graduação é denso demais e às vezes não tem o parágrafo que a banca cobra, e muito curso “específico para perito” recicla conteúdo de outras carreiras e só troca a capa.

Foi para resolver isso que a Leilane reuniu os 28 assuntos que mais caem em provas de perito Biologia/Biomedicina na [Apostila de Específicas], com teoria e questões já no recorte forense.

E os resultados de quem estuda nesse recorte aparecem: a Silvia, biomédica, foi aprovada em 1º lugar para Perito em Pernambuco, com 85% de acertos na prova.

As etapas

Sempre existem prova objetiva, investigação social (verifica se sua conduta é compatível com a de um servidor da segurança pública) e exames de saúde (toxicológico e verificação de condições incapacitantes listadas no edital). Também são frequentes a prova discursiva, o teste de aptidão física, a avaliação psicológica e a prova de títulos (classificatória). Mais raras são a prova oral (até hoje, só Rondônia e São Paulo) e o curso de formação, que pode ser etapa do concurso ou acontecer depois da posse.

Não deixe o teste físico para a última hora: a Leilane foi aprovada nas primeiras etapas da PCDF e reprovou justamente no TAF, porque achou que não passaria da objetiva e não se preparou.


Onde o biomédico trabalha na perícia

Muita gente acha que o biomédico vai trabalhar só no laboratório de DNA. Não é assim. Todo perito é treinado para atuar em qualquer área da instituição, e o que define onde você vai trabalhar são as atribuições do cargo, a sua lotação e a necessidade da instituição.

Capital e grandes centros concentram os setores especializados (genética, toxicologia, química forense, engenharia). Lá, é mais provável você trabalhar perto da sua formação. No interior, o perito costuma fazer de tudo: local de morte, acidente de trânsito, incêndio, furto em residência, triagem de drogas. Um biomédico lotado em Bagé, no interior gaúcho, não vai fazer perícia de DNA (não existe esse setor lá), mas vai precisar estudar física para calcular a velocidade de um veículo num atropelamento.

Entre as áreas em que o biomédico pode atuar:

  • Local de morte violenta (homicídio, suicídio, acidente) e local de acidente de trânsito, que existem em todas as cidades;
  • Local de incêndio e explosão;
  • Balística forense e documentoscopia, perícias que não exigem formação específica;
  • Perícia ambiental e perícia contábil;
  • Entomologia forense, ainda em desenvolvimento em várias instituições;
  • Informática forense, áudio e imagem;
  • Inteligência, setor de apoio estratégico às investigações;
  • Reprodução simulada dos fatos (a popular “reconstituição”);
  • Genética forense, a mais próxima da grade da Biomedicina;
  • Química forense.

A trajetória da Leilane mostra como isso funciona na prática. No IGP-RS, ela trabalhou com drogas apreendidas (química analítica), fez coletas externas e aplicação de luminol em plantões de sobreaviso, assumiu a gestão da qualidade da Química Forense e, em 2024, a chefia da Assessoria de Comunicação. Nas palavras dela: “Eu não trabalhei com nada da biomedicina. Tudo que eu fiz no IGP eu tive que aprender do zero.” Ela tinha estudado a teoria para o concurso, mas nunca tinha visto um cromatógrafo antes de entrar.

Vale saber também que local de crime, o setor que mais atrai quem está começando, costuma ser o que os peritos formados menos disputam — as vagas do interior sobram para os novatos, e muita gente pede remoção para a capital depois.


Concursos no radar para biomédicos (setembro de 2026)

  • Maranhão: edital publicado, com vaga para biomédico.
  • Distrito Federal (PCDF): concurso autorizado, com previsão de vagas para Biomedicina.
  • Rio de Janeiro: banca contratada; a Biomedicina está na legislação, mas as áreas ainda não foram divulgadas.
  • Espírito Santo: concurso solicitado; Biomedicina contemplada na legislação.
  • Mato Grosso: previsto; a Biomedicina não estava no último edital, mas a legislação foi atualizada.
  • Tocantins: banca em contratação; o termo de referência não lista Biomedicina (há área de Química e Farmácia, o que abre espaço para tentar por equivalência).
  • Pará (comissão formada) e Acre (em estudo, 11 vagas previstas): sem definição de áreas.

Um detalhe importante: não existe periodicidade para concursos de perito. Há estados sem concurso há mais de 10 ou 15 anos. Isso deixa a concorrência muito qualificada, porque quem não passa em um concurso costuma continuar estudando para o próximo. A Nadine prestou o IGP-RS em 2008, foi para o cadastro reserva e não foi nomeada; tentou de novo em 2017; foi aprovada e trabalhou no Pará; e voltou a prestar o IGP-RS em 2025, quando ficou dentro das vagas.

Veja mais detalhes dos editais previstos aqui: https://mapaconcursos.com.br/concurso-perito-criminal-editais-previstos-para-2026/


Como começar a se preparar

Comece agora, mesmo sem ter certeza de que vai haver vaga. A Leilane começou no 3º ano da faculdade, foi aprovada no ano em que se formou e tomou posse mais de um ano depois. Esperar a vaga aparecer para começar costuma ser tarde demais.

Escolha um tipo de prova. Foque em perito especialista, que concentra a maioria das oportunidades, e priorize matérias que caem em quase todos os editais — genética, por exemplo.

Leia o edital anterior do concurso que te interessa antes de comprar qualquer material. E comece pelo que vale mais na prova, não pelo que você gosta mais.

Resolva questões desde a primeira semana e revise de forma periódica. Resolver milhares de questões não é diferencial para perito; é requisito.

Evite resumos. A Leilane passou quase dois anos fazendo “resumo do resumo do resumo” e só destravou quando trocou por técnicas de recordação ativa. Resumir consome muito tempo e devolve pouco em memorização.

Estude de forma sustentável. A maioria dos candidatos concilia os estudos com faculdade ou trabalho. Uma, duas ou três horas por dia, com método, levam longe. Nossos mentorados aprovados estudaram entre 40% e 70% do edital, e não 100%: o que fez diferença foi priorizar o que cai.

Encare como projeto de longo prazo. Não existe tempo mínimo nem máximo para passar. Aceitar isso tira a ansiedade das decisões, sem tirar a pressa de agir hoje.

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Perguntas frequentes

Biomédico pode ser perito criminal?

Sim. A Biomedicina foi aceita em 20 dos 28 editais mais recentes de perito criminal no Brasil (71%), e esse número tende a crescer com atualizações de legislação, como a do DF. O requisito é ter graduação aceita no edital e ser aprovado no concurso público — não existe outro caminho para a perícia oficial.

Precisa de pós-graduação para ser perito criminal?

Não. A pós-graduação não é requisito em nenhum edital de perito. Ela pode render pontos na prova de títulos, quando essa etapa existe, mas o peso é pequeno em comparação com a prova objetiva e a discursiva. Um bom desempenho nas provas escritas pesa muito mais que qualquer título.

Posso prestar concurso de perito antes de me formar?

Pode. O diploma e o registro no Conselho de Biomedicina só são exigidos na posse, que normalmente acontece bem depois da prova — entre as etapas do concurso e a nomeação, pode levar anos. Por isso, começar a estudar durante a graduação é uma vantagem, não um problema.

Quanto ganha um perito criminal?

O salário inicial médio fica em torno de R$ 15 mil. Os maiores iniciais (AM, DF, PR, SC e Polícia Federal) giram entre R$ 26 mil e R$ 28 mil, e o Mato Grosso tem o maior final de carreira, perto de R$ 43 mil. A remuneração é a mesma para todas as formações dentro do mesmo cargo.

Biomédico trabalha só no laboratório de DNA?

Não. Todo perito é treinado para atuar em qualquer área da instituição. O setor depende da lotação e da necessidade do órgão: na capital, é mais provável trabalhar em áreas especializadas como genética; no interior, o perito atende local de morte, acidentes de trânsito, incêndios e outras perícias gerais.

O que cai nas específicas de Biologia e Biomedicina?

Genética, biologia molecular, entomologia forense e conteúdo ambiental aparecem com frequência, além de temas forenses como tricologia, hematologia forense e análise de manchas de sangue. Quando o biomédico concorre com farmacêuticos ou químicos, entram também farmacologia e química. O recorte cobrado é forense, diferente do da graduação.

E se o edital não aceitar Biomedicina?

Se houver uma área com atribuições compatíveis, é possível acionar o Conselho para pedir retificação do edital, como aconteceu no Ceará. Outra opção, por conta e risco do candidato, é prestar por equivalência e garantir a posse via mandado de segurança — caminho que já deu certo no Pará, mas não é garantido.


Você não está começando em desvantagem

Se você é biomédica e chegou até aqui, provavelmente carregava a dúvida que quase todo mundo da área tem: “alguém como eu consegue chegar lá?”. Ela aparece quando você vê que vai concorrer com biólogos, farmacêuticos e químicos, abre um edital cheio de matérias que nunca viu na faculdade e não sabe o que a prova cobra de verdade.

Esse caminho já foi feito. A Leilane saiu da Biomedicina na UEM, estudou as mesmas específicas que você vai estudar e foi aprovada em 1º lugar. A Silvia, biomédica, passou em 1º lugar em Pernambuco. A diferença entre elas e quem desiste depois da primeira prova raramente é talento: é saber o que estudar e ter alguém revisando o caminho.

Imagine abrir o edital do próximo concurso da sua área e já saber quais assuntos vêm primeiro, ter um cronograma que cabe na sua rotina de faculdade ou trabalho e um mentor perito acompanhando a sua evolução mês a mês.

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