Imagine a cena.
Um médico acaba de examinar um cadáver. O cheiro da decomposição ainda persiste nas mãos, mesmo depois de lavá-las com água e sabão. Ele deixa a sala de autópsia e segue para a maternidade, onde mulheres aguardam o nascimento de seus filhos.
Sem luvas. Sem antissepsia adequada. Sem imaginar que pode estar levando a morte de uma sala para outra.
Hoje, só de imaginar essa cena, você provavelmente sente repulsa.
Mas, em 1847, no Hospital Geral de Viena, essa era uma prática comum.
Foi nesse contexto que Ignaz Semmelweis, um médico húngaro, começou a investigar por que tantas mulheres morriam de febre puerperal após o parto.
Ele percebeu que a mortalidade era muito maior na maternidade atendida por médicos e estudantes que realizavam autópsias do que naquela atendida por parteiras.
Sua hipótese? Os próprios médicos estavam levando material contaminado dos cadáveres para as mulheres.
Semmelweis passou a exigir que os profissionais desinfetassem as mãos com uma solução clorada antes de examinar as pacientes.
A mortalidade despencou.
E você sabe o que aconteceu?
Suas conclusões enfrentaram forte resistência entre os médicos da época.
Para aqueles profissionais, que haviam passado anos estudando medicina, era difícil aceitar que uma prática tão corriqueira pudesse estar matando justamente as pessoas que eles tentavam salvar.
Aceitar a descoberta de Semmelweis significava admitir que aquilo que sempre haviam feito, aquilo que aprenderam com seus professores e repetiram durante anos, estava errado.
E, convenhamos, ninguém gosta muito de descobrir que está errado.
Essa história foi tão marcante que deu origem ao termo efeito Semmelweis: nossa tendência a rejeitar novas evidências quando elas contradizem crenças que já consideramos verdadeiras.
E eu tenho quase certeza de que você já experimentou isso.
Talvez não em uma maternidade do século XIX, mas aqui mesmo, dentro da nossa mentoria.
Lembra quando você descobriu que não recomendamos estudar fazendo aqueles resumos enormes, reescrevendo o conteúdo em outro lugar?
Talvez tenha pensado: “Mas como assim? Eu sempre estudei desse jeito!”
Ou quando descobriu que não precisava dominar perfeitamente um assunto antes de passar para o próximo.
Que deveria fazer questões mesmo sem se sentir preparado.
Que existia uma forma diferente de revisar, memorizar e organizar seus estudos.
Talvez tenha desconfiado. Questionado. Achado que aquilo não funcionaria para você.
Afinal, contrariava tudo que você havia aprendido sobre estudar.
Até que resolveu experimentar.
E, aos poucos, começou a perceber que algumas das coisas nas quais acreditava tão profundamente talvez não fossem verdades absolutas.
Engraçado como a gente precisa viver certas coisas para compreender, né?
Mas hoje não quero falar sobre métodos de estudo.
Quero falar sobre você.
Porque, nessa história de estudar para ser perito criminal, talvez você esteja ocupando um lugar muito parecido com o de Semmelweis.
Hoje, você é o louco.
Estudar para um concurso com uma única vaga?
“Você é louco!”
Estar há três anos estudando, sem saber quando será o próximo edital?
“Mas você ainda está nessa?”
Deixar de viajar, sair menos, recusar convites, gastar dinheiro com uma preparação que ninguém sabe quando vai terminar?
“Você está desperdiçando sua vida!”
E quando descobrem que você quer trabalhar com cadáveres, cenas de crime, violência, vestígios biológicos…
“Mas por que alguém iria querer uma vida dessas?”
Talvez você já tenha ouvido algumas dessas coisas.
Talvez tenham vindo de pessoas que ama. De amigos, colegas de trabalho ou familiares que, à maneira deles, estavam tentando te proteger de uma possível frustração.
Talvez tenham feito você se perguntar se não estava mesmo exagerando.
E eu entendo.
Porque, se tem uma coisa que ouvi ao longo da minha vida, foi que algumas das minhas escolhas eram uma loucura.
Quando decidi fazer faculdade na UEM, por exemplo, em vez de escolher uma universidade de maior prestígio, minha decisão pareceu estranha para muita gente.
Mas eu tinha uma razão.
Acreditava que, naquela universidade, teria mais oportunidades de me destacar academicamente e conseguir uma bolsa de intercâmbio.
Eu não estava simplesmente escolhendo uma universidade. Estava pensando nas oportunidades que queria construir a partir daquela escolha.
E, quando decidi estudar para concursos em vez de seguir pelo caminho do mestrado, me senti uma estranha.
Errada, até.
Como se estivesse deixando de fazer aquilo que uma boa profissional da minha área deveria fazer.
Mais tarde, já sendo perita criminal em Porto Alegre, ingressei em um dos mestrados mais concorridos de uma universidade federal.
E desisti depois de começar.
Pode imaginar a reação?
Como assim, depois de conseguir uma oportunidade dessas, você vai abrir mão dela?
A questão é que, em todas essas decisões, existia uma diferença entre o que as pessoas viam e o que eu estava vivendo.
Elas enxergavam o prestígio de uma universidade, de um mestrado, de um título.
Eu precisava considerar a vida que queria construir.
E não estou dizendo que minhas escolhas foram melhores do que as de quem decidiu seguir outros caminhos. Muito menos que toda decisão ousada é uma boa decisão.
Estou dizendo que ninguém mais poderia tomar essas decisões por mim.
Porque ninguém mais teria que viver a minha vida.
Assim como ninguém mais vai viver a sua.
E talvez seja isso que eu mais queira que você entenda com esta carta.
As pessoas que questionam sua preparação enxergam apenas uma pequena parte da sua história.
Elas veem o sábado em que você ficou em casa estudando.
Não veem o que passa pela sua cabeça quando você se imagina entrando no laboratório de química forense pela primeira vez, vestindo seu jaleco e sabendo que finalmente está onde queria estar.
Elas veem os anos que você está dedicando a um concurso.
Não veem a vida que você imagina ter depois dele.
Elas veem o dinheiro, o tempo, os convites recusados, os feriados que passaram.
Mas talvez não saibam o que significa, para você, conquistar sua independência financeira. Poder ajudar seus pais. Morar onde deseja. Trabalhar com algo que realmente desperta seu interesse.
Talvez não entendam que você não está estudando apenas para passar em uma prova.
Você está tentando construir uma vida da qual não queira fugir na segunda-feira de manhã.
E, para quem não compartilha desse desejo, suas escolhas podem realmente parecer uma loucura.
Mas sabe o que é interessante?
Se um dia você contar essa mesma história depois da aprovação, provavelmente ouvirá comentários muito diferentes.
“Eu sempre soube que você ia conseguir!”
“Olha só onde você chegou!”
“Que orgulho ter alguém da família que é perito criminal!”
De repente, aqueles três anos estudando deixam de parecer tempo desperdiçado e passam a ser uma demonstração admirável de perseverança.
Os fins de semana em casa deixam de ser exagero e viram sacrifícios que valeram a pena.
Sua decisão de estudar para um concurso com uma vaga, que antes parecia absurda, passa a ser lembrada como uma prova de coragem.
O que mudou?
Você continua sendo a mesma pessoa.
Suas razões continuam sendo as mesmas.
Mas agora existe um resultado que os outros conseguem compreender.
E aqui está o problema de depender desse reconhecimento: enquanto ele não chega, você fica sem ninguém para validar o caminho que escolheu.
Por isso, quero te dizer algo que talvez você precise ouvir hoje.
Você não precisa esperar dar certo para ter o direito de acreditar nas suas próprias escolhas.
Não precisa convencer sua família de que a perícia criminal é a carreira perfeita.
Não precisa provar para os amigos que estudar para um concurso com poucas vagas é uma decisão razoável.
E não precisa transformar cada conversa sobre seu futuro em uma defesa da sua vida.
Você pode simplesmente continuar.
Estudar. Trabalhar. Descansar quando precisar. Ajustar o que não está funcionando. Reavaliar suas decisões quando surgirem novas informações.
E continuar escolhendo conscientemente aquilo que faz sentido para você.
Nem toda pessoa que duvida do seu caminho está tentando te desanimar. Algumas realmente querem o seu bem. Outras só não conseguem imaginar uma vida diferente daquela que escolheriam para si mesmas.
Mas você não precisa fazer dos limites delas os seus.
E, quando estiver cansado de explicar suas escolhas, lembre-se de que existe um lugar onde você não precisa fazer isso.
Aqui.
Seus mentores entendem por que alguém estuda tanto para um concurso com uma vaga.
Seus colegas mentorados entendem por que você se preocupa com uma questão que errou, por que fica ansioso esperando um edital, por que comemora quando finalmente consegue aprender aquele assunto que parecia impossível.
Nós entendemos por que você quer entrar em uma cena de crime quando tantas pessoas fariam qualquer coisa para sair dela.
Entendemos porque também escolhemos essa vida.
Porque alguns de nós já estiveram exatamente onde você está agora.
E porque outros estão vivendo tudo isso junto com você.
Talvez o mundo só compreenda suas escolhas quando elas produzirem um resultado que ele consiga reconhecer.
Mas, até lá, você não precisa caminhar sozinho.
Pode continuar sendo o louco que estuda para uma vaga.
O louco que sonha com um trabalho que ninguém mais quer fazer.
O louco que decidiu que vale a pena tentar, mesmo sem ter garantias.
Porque, se você sabe por que está fazendo tudo isso, não precisa que o mundo inteiro entenda.
Nós entendemos.
Com carinho, de uma louca que também já esteve desse lado da história,
Leilane Verga.
